quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Filosofia de Botequim


Filosofia de botequim é uma coisa divertida - desde que saibamos bem quais são os limites. Ninguém deve tomar gato por lebre: o que se fala numa mesa de bar, fala-se por falar. O ritual se satisfaz em si mesmo, e nada ali deve ser levado a sério.

Mas as recomendações do bom-senso são difíceis de seguir. Principalmente aqui em Burundi, onde o que vale mesmo é o botequim.

Pois não é que se fundou uma nova associação de filosofia e psicanálise sem nenhum filósofo qualificado? Não quero ser tão injusto: há filósofos qualificados ali, sim, com graduação em faculdades arquidiocesanas. Arquidiocesanas? É, mas o MEC autorizou por enquanto. Vejam vocês mesmo em http://www.abrafp.org/

Mas imaginem: se uns caras como esses podem cobrar 60 reais por mês, quanto deveriam cobrar os que se qualificaram com doutorado (no mínimo) nas melhores universidades daqui ou de fora? E agora, pasmem: os mais qualificados não cobram nada!

Como se não fossem suficientes as parvoíces de Slavojs Zizeks de tudo quanto é tipo por aí, temos uma estupidez ainda mais profunda. Como disse Bernardo Soares, "o que mais me maravilha não é a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida, mas a inteligência que há nessa estupidez".

Em matéria de filosofia e psicanálise (quero dizer "filosofia da psicanálise"), toda estupidez é perfeitamente possível. Ela é, como a própria vida, desprovida de método de decisão. Só contamos com a decisão.

Em psicanálise é o que basta.

Mas em filosofia, não. Filosofia, em geral, tem método. O método, ou a sua falta, é ela mesma. E, assim, conversa de botequim.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Sentido Intimo das Coisas


“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. [...]
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Psicanálise às Voltas com Mediocridade II


Um dos índices de mediocridade surge quando se vê psicanalistas tratando a matéria clínica como matéria empírica. A confusão é de natureza inconsciente: mistura-se o gramatical, algo que deveria ser apenas o estabelecimento de relações internas (como na arte, como na religião, como nos rituais de todo tipo), com uma verdade de tipo experimental ou científico, algo que estabelece relações externas.

E é por isso que desconfio muito da aplicação da psicanálise por psicólogos e médicos com parca formação humanista. Vem dessa gente (em geral, claro) uma vontade de teorização expressa em frases soltas ao vento, do tipo:

- "Isso, claro, corresponde a uma reação anal com claros índices edipianos" (ele quer referir-se a alguém protestando)

- "A sua linguagem delirante mostra de imediato a foraclusão pela invasão do real no simbólico" (ele quer referir-se a uma entrevista com um esquizofrênico)

- "A impossibilidade de realização do luto impede o processo de introjeção da libido no ego" (ele quer referir-se a uma dificuldade de saída do luto)

E claro, aqui o analista pula do concreto, da práxis, para o abstrato de uma teoria qualquer.

No livro de Elisabeth Roudinesco, História da Psicanálise na França (Zahar, 1988, p. 652), lemos algo a respeito desse tipo de mediocridade coletiva entre lacanianos. Tratava-se de um comentário ciumento de Lacan, no contexto da Escola Freudiana de Paris, contra Nicolas Abraham, Maria Torok e Jacques Derrida. Cito:

"A obra alcança extraordinário sucesso, notadamente depois que alguns lacanianos sentem-se fascinados por essa cripta barroca, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante de seu palavreado cotidiano. O próprio Lacan fica muito surpreso. E, sentindo-se agredido pelo fato de se tocar dessa maneira num território do qual se apropriara, interpreta mal a elaboração dos autores e do prefaciador. Em seu seminário, comenta a obra esquecendo-se de que Abraham morreu há um ano e afirmando que Derrida deve estar em análise com os dois autores, já que se atrela a eles. Alguns imbecis na platéia explodem numa gargalhada, persuadidos da justeza dessa interpretação."

O que dizer dessa gente que confunde matemas com realidade? Anos a fio aprendendo e aplicando Lacan, citando-o de cor e salteado, e usando, por exemplo, o matema dos quatro discursos como se fosse uma descrição da universidade, da histérica ou da psicanálise e não uma gramática de posições subjetivas.

O que pode a história ensinar a essa gente sobre os destinos tão funestos que a psicanálise às vezes escolhe para si?

Psicanálise às Voltas com Mediocridade I

Os livros de história da psicanálise deveriam servir para nos ensinar como e por que as instituições psicanalíticas tantas e tantas vezes estiveram envolvidas com o que há de pior (nazismo na Alemanha, década de 30 e 40; ditadura militar no Brasil, década de 60, para citar dois exemplos funestos), e a evitar que as coisas se repetissem.

Mas estes livros, de fato, nada ensinam, em geral, porque pouco podem. E o motivo é da ordem daquilo que a própria psicanálise ensina: o inconsciente.

Por isso, aprenderá algo de um livro de história da psicanálise apenas o psicanalista que já estiver predisposto a isso. Os outros, a grande maioria, não.

Por isso, de novo, não é a análise (boa ou má), nem o aprendizado (bom ou ruim), nem uma teoria (vanguardista ou conservadora), nem a supervisão (precisa ou mambembe) que definirá qualquer coisa, mas tão-somente o desejo eticamente mobilizado. Coisa impossível de proferimento universalmente articulado porque concernente a cada sujeito.

Digo isso como preparação para o tópico a seguir (acima.)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

sábado, 10 de janeiro de 2009

Ou a Beleza se Derrama em Cascata?

Olhe no céu a imensa lua redonda e prata,
veja como ela flutua leve e veja que o seu imenso silêncio
testemunha nossos mais secretos amores.
Destape a tampa e sinta como se derrama em profusão
uma torrente de belas imagens: você se lembrará
do trovador, das suas brincadeiras de infância,
das suas promessas e grandes enganos, da gratidão.

Lembrará da roupa no armário, do cheiro do seu cabelo,
do travesseiro, de que ela passou por aqui.
Lembrará da ausência, da dor lancinante, do abandono,
de como tudo recomeçou e o que era deserto fertilizou.

Você passará por tudo isso, pelo choro e pelo riso,
pelo ponto mais alto e pelo mais escuro profundo,
por tudo o que é belo, se tão-somente se deixa
embaixo d'água e de tudo o que não pode conter.

Beleza não tem fim?


Hoje eu trocaria o verso de Vinícius por "beleza": quando será que ela acaba?

Tem uma pessoa que quanto mais eu conheço, mais descubro nela magníficas paisagens antes insuspeitadas.

Eu sei que a felicidade é uma pluma que o vento vai levando pelo ar, concordo que a felicidade do pobre parece a grande ilusão do Carnaval, mas acho que é a beleza, não a tristeza, que não tem fim. Tristeza acaba um dia, ela vai e volta, é um bumerangue. Tudo bem. Mas a beleza, não. Tanto na obra de arte quanto numa pessoa. Como em qualquer grande obra de arte, quanto mais vc se aproxima mais descobre coisas novas - e isso pode durar eternamente -, assim são as pessoas que abrigam algo estético em seu coração.

A amplitude do interesse estético.