sábado, 11 de julho de 2009

Certeza?


O Grupo de Filosofia da Linguagem e do Conhecimento, coordenado pelo Prof. Arley Moreno, vai realizar, com o apoio do Departamento de Filosofia do IFCH (Unicamp), do Programa de Pós-Graduação em Filosofia do IFCH (Unicamp), e do Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp, mais um Colóquio Wittgenstein: III Colóquio Internacional/VI Colóquio Nacional Wittgenstein.

Este ano o tema do Colóquio será "Certeza?", e os conferencistas convidados são: David Stern e Plinio Smith. O Prof. Moreno estará a cargo da primeira conferência.

Os títulos das conferências e a chamada para apresentação de comunicações está no site (clique no link acima).

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O Sentido Íntimo das Cousas (2)

Quando Caeiro disse que "o único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido íntimo nenhum", ele, em seu apreço pelos aparentes paradoxos, dá sentido ao que naturalmente não tem sentido.

Essa é a diferença, por exemplo, entre o ético e o trágico. O trágico é o fato de que o mundo é totalmente indiferente à minha vontade, enquanto o ético é a quase inútil exigência de que o mundo tenha algum sentido.

Do que se depreende que linguagem é uma constante reconstrução; que é uma batalha diária de humanização das relações do eu com as coisas, com o outro e consigo mesmo; que ela implica o atrito entre a pulsão e a possibilidade da sua realização; e que é no interior dessa luta, na práxis, contra a subjugação, que conquistamos uma subjetividade.

A subjetivação dissolve o paradoxo.

domingo, 5 de abril de 2009

No Círculo Cínico

No Círculo Cínico é o nome de um livro de Ricardo Goldenberg.

Se o nosso tempo for realmente, como o descrevem algumas análises do espírito contemporâneo, o do cisnismo, então a maioria das expressões do pensamento que surge hoje em dia deverá carecer de autenticidade.

Sim, porque o cinismo, no sentido da desfaçatez e do descaramento em que o circunscrevo aqui, e não daquela escola de filosofia antiga que defendia o despojamento material e moral, consiste em simular o autêntico, em parecer-ser, em fingir uma legalidade ou uma moralidade, a fim de angariar alguma vantagem.

Reconhecer-se-á o cínico pela absoluta falta de compromisso com o que apregoa. Todo o resto, o discurso, é semelhante.

Desse modo, não é difícil hoje encontrar o marxista cujo marxismo é tão verdadeiro quanto o sincero amor de Xuxa pelas criancinhas, ou o artista cujo interesse vai, além da arte, direto para a fama e seus dois rendimentos mais ansiados, o sexo e o poder, ou os psicanalistas lacanianos especializados em política, aplicando, de modo imediato e canhestro, uma boa mitologia clínica no complexo e intrincado campo social.

Essas pessoas me lembram vivamente um certo morador da Cidade Universitária II, ali ao lado da Unicamp (Campinas-SP), na Avenida Luiz di Tella, que construiu um castelo num espaço exíguo, e encaixou no local uma estátua de si mesmo. Normalmente é a sociedade quem se encarrega de reconhecer seus heróis e próceres, post mortem, é claro, e homenageá-los com estátuas por causa de algum benefício social. Mas esse homem resolveu dar-se a si esse reconhecimento, mesmo independente de qualquer ato coletivamente benfazejo, simulando a opinião alheia e o rito social à moda do solipsismo, e colocando sua estátua em posição panorâmica como um grande e eterno prócer. O detalhe, nada insignificante aqui, é que falta autenticidade.

Na luta selvagem na qual a economia de mercado livre nos mergulha, o cinismo em arte, filosofia e psicanálise parece até compreensível. Afinal, para que ser gênio e não ser compreendido? É melhor mesmo vender ova de baiacu como caviar pra não morrer de fome...

Em arte, filosofia e psicanálise a lógica, hoje, é inaugurar estátuas de si mesmo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Filosofia de Botequim


Filosofia de botequim é uma coisa divertida - desde que saibamos bem quais são os limites. Ninguém deve tomar gato por lebre: o que se fala numa mesa de bar, fala-se por falar. O ritual se satisfaz em si mesmo, e nada ali deve ser levado a sério.

Mas as recomendações do bom-senso são difíceis de seguir. Principalmente aqui em Burundi, onde o que vale mesmo é o botequim.

Pois não é que se fundou uma nova associação de filosofia e psicanálise sem nenhum filósofo qualificado? Não quero ser tão injusto: há filósofos qualificados ali, sim, com graduação em faculdades arquidiocesanas. Arquidiocesanas? É, mas o MEC autorizou por enquanto. Vejam vocês mesmo em http://www.abrafp.org/

Mas imaginem: se uns caras como esses podem cobrar 60 reais por mês, quanto deveriam cobrar os que se qualificaram com doutorado (no mínimo) nas melhores universidades daqui ou de fora? E agora, pasmem: os mais qualificados não cobram nada!

Como se não fossem suficientes as parvoíces de Slavojs Zizeks de tudo quanto é tipo por aí, temos uma estupidez ainda mais profunda. Como disse Bernardo Soares, "o que mais me maravilha não é a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida, mas a inteligência que há nessa estupidez".

Em matéria de filosofia e psicanálise (quero dizer "filosofia da psicanálise"), toda estupidez é perfeitamente possível. Ela é, como a própria vida, desprovida de método de decisão. Só contamos com a decisão.

Em psicanálise é o que basta.

Mas em filosofia, não. Filosofia, em geral, tem método. O método, ou a sua falta, é ela mesma. E, assim, conversa de botequim.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Sentido Intimo das Coisas


“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. [...]
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Psicanálise às Voltas com Mediocridade II


Um dos índices de mediocridade surge quando se vê psicanalistas tratando a matéria clínica como matéria empírica. A confusão é de natureza inconsciente: mistura-se o gramatical, algo que deveria ser apenas o estabelecimento de relações internas (como na arte, como na religião, como nos rituais de todo tipo), com uma verdade de tipo experimental ou científico, algo que estabelece relações externas.

E é por isso que desconfio muito da aplicação da psicanálise por psicólogos e médicos com parca formação humanista. Vem dessa gente (em geral, claro) uma vontade de teorização expressa em frases soltas ao vento, do tipo:

- "Isso, claro, corresponde a uma reação anal com claros índices edipianos" (ele quer referir-se a alguém protestando)

- "A sua linguagem delirante mostra de imediato a foraclusão pela invasão do real no simbólico" (ele quer referir-se a uma entrevista com um esquizofrênico)

- "A impossibilidade de realização do luto impede o processo de introjeção da libido no ego" (ele quer referir-se a uma dificuldade de saída do luto)

E claro, aqui o analista pula do concreto, da práxis, para o abstrato de uma teoria qualquer.

No livro de Elisabeth Roudinesco, História da Psicanálise na França (Zahar, 1988, p. 652), lemos algo a respeito desse tipo de mediocridade coletiva entre lacanianos. Tratava-se de um comentário ciumento de Lacan, no contexto da Escola Freudiana de Paris, contra Nicolas Abraham, Maria Torok e Jacques Derrida. Cito:

"A obra alcança extraordinário sucesso, notadamente depois que alguns lacanianos sentem-se fascinados por essa cripta barroca, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante de seu palavreado cotidiano. O próprio Lacan fica muito surpreso. E, sentindo-se agredido pelo fato de se tocar dessa maneira num território do qual se apropriara, interpreta mal a elaboração dos autores e do prefaciador. Em seu seminário, comenta a obra esquecendo-se de que Abraham morreu há um ano e afirmando que Derrida deve estar em análise com os dois autores, já que se atrela a eles. Alguns imbecis na platéia explodem numa gargalhada, persuadidos da justeza dessa interpretação."

O que dizer dessa gente que confunde matemas com realidade? Anos a fio aprendendo e aplicando Lacan, citando-o de cor e salteado, e usando, por exemplo, o matema dos quatro discursos como se fosse uma descrição da universidade, da histérica ou da psicanálise e não uma gramática de posições subjetivas.

O que pode a história ensinar a essa gente sobre os destinos tão funestos que a psicanálise às vezes escolhe para si?

Psicanálise às Voltas com Mediocridade I

Os livros de história da psicanálise deveriam servir para nos ensinar como e por que as instituições psicanalíticas tantas e tantas vezes estiveram envolvidas com o que há de pior (nazismo na Alemanha, década de 30 e 40; ditadura militar no Brasil, década de 60, para citar dois exemplos funestos), e a evitar que as coisas se repetissem.

Mas estes livros, de fato, nada ensinam, em geral, porque pouco podem. E o motivo é da ordem daquilo que a própria psicanálise ensina: o inconsciente.

Por isso, aprenderá algo de um livro de história da psicanálise apenas o psicanalista que já estiver predisposto a isso. Os outros, a grande maioria, não.

Por isso, de novo, não é a análise (boa ou má), nem o aprendizado (bom ou ruim), nem uma teoria (vanguardista ou conservadora), nem a supervisão (precisa ou mambembe) que definirá qualquer coisa, mas tão-somente o desejo eticamente mobilizado. Coisa impossível de proferimento universalmente articulado porque concernente a cada sujeito.

Digo isso como preparação para o tópico a seguir (acima.)